Estamos vivendo a maior crise sanitária da história deste país e, também por conta disto, vivemos uma enorme crise econômica, e não sabemos se vai piorar. Também é verdade que a curva de mortes não diminuiu. Hoje, enquanto escrevo esse artigo, morreram 64.909 brasileiros, em decorrência do covid-19, e mais de 1,6 milhão de pessoas estão infectadas com o coronavírus. Então, por que no meio de toda essa confusão devemos falar de uma festa?
Devemos falar justamente porque não estamos falando de uma festa. Estamos falando do maior evento cultural que esse país produz. Estamos falando do desfile de escola de samba. Escola de samba no Brasil é uma atividade cultural que envolve 26 Estados e mais o Distrito Federal e, com tranquilidade, podemos dizer que pelo menos metade das cidades brasileiras tem pelo menos uma escola de samba. Estimo que existam mais de 4.000 escolas de samba ativas em nosso pais. Escola de samba é um produto consumido em todos os outros continentes. Seguramente também posso assegurar que, em pelo menos três dezenas de países, existem pelo menos uma escola de samba. E quem fornece conteúdo, capacitação e até insumos para esses países? O Brasil. A máquina de produção e seu envolvimento emocional com as comunidades é um fator que não se pode desprezar. Essa cadeia produtiva ainda precisa ser melhor pesquisada, mas, nos poucos números que dispomos, podemos perceber o quanto que ela é importante para o nosso país.
Segundo a prefeitura da cidade de São Paulo, o carnaval arrecadou mais de R$ 2,97 bilhões, sendo que só o Sambódromo do Anhembi faturou R$ 227 milhões.
Uma atividade que tem essa força ativa não pode deixar de pensar em 2021. Os sambistas não podem ser acusados de não pensar em não salvar vidas e ajudar as pessoas. Logo na primeira semana de isolamento, as escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, a partir da Acadêmicos do Grande Rio, abriram seus barracões para confecção de máscaras, viseiras, aventais, inclusive servindo a rede pública e os hospitais de campanha. Além disso, promoveram enormes campanhas de arrecadação de cestas básicas. Em São Paulo, as escolas de samba que carregam o DNA de torcidas de futebol, Mancha Verde e Gaviões da Fiel, arrecadaram mais de R$ 300.000,00 e transformaram em cestas básicas. As demais escolas seguiram pelo mesmo caminho. A LIGA-SP organizou uma grande live solidária e a UESP segue com a campanha entregando marmitas às pessoas em condição de rua.

Em Florianópolis, a LIESF colocou à disposição o sambódromo para acolhimento às pessoas, e no Rio Grande do Sul, as escolas estão produzindo máscaras, distribuindo cestas e organizando lives solidárias.
Se o segmento do samba pensou na sociedade e pensou e se organizou de um jeito que nenhum outro segmento da cultura pensou fazer, agora temos que pensar no futuro do carnaval. Pensar no futuro do carnaval é pensar nas milhares de pessoas que vivem e trabalham no carnaval. Temos que pensar nos empregos diretos, que são os profissionais das escolas, nos gerentes e artistas, mas também naqueles que trabalham indiretamente, que é um grupo maior até que os envolvidos com a produção dos desfiles nos barracões, ateliers e quadras.
Os sambistas não podem ter medo de enfrentar esse dilema. Temos sim que pensar em como realizar os desfiles pelo país. Temos que pensar em uma maneira segura de retomar os ensaios e como faremos os desfiles.
Todas as categorias da economia estão apresentando protocolos de segurança para retomada de suas atividades e o segmento da escola de samba precisa pensar no seu. Essa ação precisa ser feita a partir de um olhar nacional, onde todas as cidades possam participar. É imprescindível que as escolas de articulem um calendário para o carnaval para 2021, diante da nova realidade criada pela pandemia.
As escolas de samba são o exercício da resistência e da eterna luta para existir. Estamos num dos momentos mais delicados dos últimos tempos, mas não podemos ter medo de discutir e refletir sobre o futuro do carnaval.
Kaxitu Campos/ Presidente da Fenasamba








